A semana de moda de Paris começou hoje, sem muito alarde. Gareth Pugh, o badalado estilista de 27 anos, já comparado a Alexander McQueen, rapidamente transformado em celebridade da moda, graças ao endosso de publicações como a revista inglesa “Dazed&Confused” e a editora da “Vogue América”, Anna Wintour, trocou o desfile por um filme e desmentiu crise: “Fazer filme também custa caro”

O filme de Pugh, em foto de Juliana Lopes (UOL).
A semana de moda de Nova York não entusiasmou ninguém, assombrada pela crise econômica. As expectativas são pessimistas para as grifes, e algumas suspenderam seus desfiles. Além de debilitar as marcas, a crise também está colocando em xeque valores e hábitos da moda, na opinião da pesquisadora e jornalista Teri Agins, repórter especial do “Wall Street Journal”, que já viveu no Brasil e é autora de um importante livro, “The End of Fashion” (o fim da moda), sobre as mudanças na indústria, no marketing e no consumo nos anos 90. Em entrevista à Folha, a jornalista diz que a moda e o comportamento do consumidor passam agora por nova transformação, por causa da crise, mas também do casal Obama, que indica outro modelo de vida aos americanos. Para Agins, acabou a época do consumismo exagerado e está entrando em cena a era da simplicidade e dos valores substantivos.

- Teri Agnis
FOLHA – Como a sra. descreveria a situação da moda nos Estados Unidos neste momento de crise?
TERI AGINS – Eu diria que as pessoas estão pessimistas e que a economia da moda vai necessariamente mudar. Analistas dizem que as vendas neste ano serão piores que as do ano passado, e há cálculos que projetam uma queda entre 3% e 7% no mercado de luxo. Desde os anos 90, houve um grande crescimento do mercado, a capacidade de produção das marcas também aumentou muito. O excesso de produção é um dos grandes problemas, pois a demanda está caindo. As marcas terão de ficar menores, não vão poder produzir tanto e terão de baixar os preços.
FOLHA – A sra. acha que o próprio perfil do consumidor também está mudando com a crise? A imprensa americana fala de um novo tipo de fashionista, o “recessionista”, e do fim da era “Sex and the City”, com personagens fanáticas por marcas.
AGINS – Sim e não. Sempre haverá pessoas obcecadas por grifes famosas e de luxo. Mas os valores estão certamente mudando. Durante os anos 90, difundiu-se um novo tipo de consumidor, pessoas que só queriam comprar e comprar. Com isso, colocamos de lado coisas que realmente têm valor, mais sérias. Agora, muitos estão questionando se devem ou não gastar US$ 5.000 num produto, mesmo que tenham dinheiro, se isto não será inapropriado ou vulgar. Estamos pensando: “Nosso novo presidente não é assim, é um homem simples”.
FOLHA – Algumas marcas americanas desistiram de desfilar em Nova York. Por quê?
AGINS – Elas estão sem dinheiro e estão pensando em economizar. Também estão se perguntando sobre o sentido de um desfile, que às vezes reúne 2.000 pessoas. Será que não bastaria reunir as pessoas certas, os jornalistas que interessam, sem gastar US$ 100 mil e US$ 500 mil num espetáculo?
FOLHA – Isto coloca em xeque a ideia de fashion week, não?
AGINS – Sim, claro. Além disso, quando você faz suas roupas, está pensando no que vai vender, o que vai para a loja. Mas, quando entra o conceito de desfile, tudo vira um show. O estilista tem que desenhar coisas que tenham este apelo do espetáculo, e o show acaba ultrapassando a marca. É uma grande distração, mas é também um gasto muito grande, para ter apenas algumas fotos nas revistas e alguns parágrafos nos jornais. Por outro lado, desfiles são também rituais, que fazem parte da tradição da moda. Ela sempre teve algo ritualístico, e essas coisas são difíceis de morrer. Podem mudar, mas não devem morrer.
FOLHA – Michelle Obama já se tornou realmente um ícone fashion, como defende a imprensa de moda?
AGINS – Ela não é um ícone fashion. Ela representa uma mulher no meio dos 40 anos, que trabalha, e as pessoas gostam dela por isso, pelo fato de ser igual à maioria das mulheres. Portanto, é ridículo compará-la a Jacqueline Kennedy, que era uma fashionista a maior parte do tempo. Nos EUA, é sempre assim: dividem as mulheres entre fashionistas e intelectuais. Ocorre que Michelle é as duas coisas ao mesmo tempo. Ela gosta de moda, mas é também substantiva, não é superficial.

E o que você acha?? É o fim da moda espetáculo? É o começo da moda para todos, da popularização das marcas? Também acha que nunca mais olharemos nossos modos de consumo como olhávamos antes? Fica aqui a sugestão de leitura do livro acima, que parece bem legal.
Outro livro que eu recomendo é Deluxe – como o luxo perdeu o brilho, de Dana Thomas. Editora Campus.

Houve um tempo em que o luxo encontrava-se disponível apenas no mundo refinado e aristocrático das velhas fortunas e da realeza. Ele não era um produto, mas um estilo de vida que denotava uma história de tradição e qualidade superior e que oferecia uma experiência de compra cheia de mimos. Atualmente, o setor é administrado por corporações globais multibilionárias que se concentram em crescimento, visibilidade, consciência da marca, propaganda e, principalmente, lucros. Os artigos feitos à mão estão praticamente extintos e quase toda a fabricação foi terceirizada para grandes fábricas.
Em Deluxe, Dana Thomas mergulha no lado negro do setor de luxo para descobrir todos os segredos que Prada, Gucci e Burberry não querem que você saiba. Dos laboratórios em Grasse – onde são produzidos os ingredientes dos perfumes Christian Dior e Prada – às fábricas abarrotadas da China – onde os operários colam “Made in Italy” em milhares de bolsas -, ela explora por completo a atual experiência de compra sofisticada e oferece um exame rápido e inflexível do mundo real por trás das revistas vistosas e da alta-costura do tapete vermelho.
Tem na Americanas, no Submarino e na livraria mais próxima de você.




