Renata Batata

Moda, customização, beleza e bem-estar

A Beleza e o Poder do Ordinário 15/08/2008

 

Todos os dias nos levantamos, cumprimos nossas rotinas matutinas, trabalhamos, comemos, trabalhamos, jantamos, dormimos… Enfim, todos os dias temos uma rotina a cumprir. A maioria de nós acha que, pelo menos de vez em quando, tem que sair da rotina e fazer coisas diferentes para não pirar. Vi ontem que pelo menos um grupo de pessoas não pensa assim.

Existe uma filosofia zen budista japonesa que cultua a natureza e sua “execução”. Explico: a natureza repete seus ciclos dia após dia, ano após ano, indefinidamente, haja o que houver. Silenciosamente, as flores desabrocham e caem, os animais se reproduzem, a chuva cai, vem o frio e o calor. Observando a natureza, percebemos que raramente as coisas mudam, os comportamentos são previsíveis. Isso acontece porque a natureza é perfeita.

Não é uma questão de repetir uma seqüência infinita e maçante. É a execução de um propósito de vida, feito com perseverança e pontualidade, independentemente se há alguém olhando ou elogiando. A vida é o que importa, a vida de quem faz. Se é o pássaro fazendo o seu ninho, se é o urso que se prepara para hibernar, cada um, cuidando da própria vida, cuida também da harmonia do todo.

Um monge de 104 anos, que hoje comanda o mosteiro que prega essa filosofia, disse: “se quisermos fazer algo, temos que colocar nossa vida em jogo. Só conseguimos atingir uma meta se a nossa vida depende daquilo”. Ao pensarmos assim, não teremos preguiça nem nos perdoaremos por não nos esforçarmos para atingir um objetivo que sabemos possível, porém difícil. Se pensarmos na frase do monge, concluiremos que a nossa vida sempre está em jogo, seja literalmente ou a longo prazo. Ao escolher ficar com alguém, não é a nossa vida? Ao escolhermos um novo emprego, não é o nosso futuro? Vida não é simplesmente o ato de existir, mas o “executar”.

Todos os dias, mesmo aqui em São Paulo, no meio dos prédios e da fumaça da poluição, observo um bando de maritacas que voa sempre no mesmo horário, às 17h30, de uma árvore para outra. Passam gritando, brincando, param nos parapeitos das varandas e conversam. Todos os dias. No inverno, quando chove e a poluição não está tão severa, o sol se põe dando um show todos os dias. Mesmo com tantos obstáculos, a natureza segue cumprindo suas “tarefas”, silenciosamente.

Em nós, a nossa vida é sempre mais importante do que a do outro. Não entendam isso como egoísmo ou “primeiro eu”. Simplesmente, nossa vida tem que ser preservada se quisermos contribuir para um equilíbrio maior e até mesmo ajudar outras pessoas. Quem pode doar? Quem tem. Quem ajuda o que está fraco? Quem está mais forte. Ao zelarmos por nossa saúde física, mental e emocional, contribuímos para a saúde emocional daqueles que amamos, incentivando-os e estendendo a mão, quando for necessário. Aceitar esse ciclo – num dia estamos fortes, noutro estamos fracos – nos faz ter a certeza de, como disse Shakespeare: “Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe”.

Saúde emocional nos ajuda a superar tropeços, nos faz rir daquilo que podia nos derrubar, nos faz ver beleza no ordinário. O filme A Dama na Água, do diretor indiano M. Night Shyamalan, fala dessa questão de poder acreditar e ver que, mesmo dentro da piscina no quintal da sua casa, pode morar uma ninfa. Esse filme foi muito criticado mas tem sua beleza, especialmente por tentar nos fazer acreditar que a magia não mora nos livros do Harry Potter mas no nosso cotidiano. Magia pode ser fazer uma declaração de amor, poder rir de novo, andar de novo, ver de novo, descobrir que ainda dá tempo. Se olharmos com atenção, todos nós podemos encontrar uma ninfa no quintal, na cozinha, no quarto… Não é acreditar, é fazer, realizar, construir a beleza de todos os dias.

 

Chinesinhas sorridentes 13/08/2008

Olha a preciosidade que encontrei na casa da minha sogra: discos da década de 60, com a Miss China vestindo um vestido tradicional (“cheongsam”), cantando com sua voz fina e harmoniosa canções de amor eternas…

Muito legal!

 

 

Será que dá? 02/05/2008

Filed under: Estilo,meio ambiente,moda,Uncategorized,vegetarianismo — renatabatata @ 7:54 pm
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Sapatilha de Couro Vegetal

Estive vendo uns sites de moda por aí e me peguei pensando. Eram tantas bolsas e sapatos lindos, casacos e acessórios para o inverno, como boinas e gorros, e a maioria das peças tinha uma coisa que me incomodava. E essa coisa era que alguém teve que morrer para que eu me vestisse bem.

Quando circulam pela mundo fotos da matança promovida pelos canadenses às focas ou a caça indiscriminada às raposas e outros animais cuja pele e pêlo são valorizados, algumas pessoas se revoltam. É mesmo revoltante que um animal indefeso seja morto numa ação covarde pelo simples fato de que seu couro e seu pêlo sejam lindos o suficiente para que alguém queira se cobrir com eles. Mas o que dizer dos animais criados para o abate, como vacas, cobras, cabras e coelhos, tão comuns e tão menos caros que encontramos por aí?

Antes não me incomodavam, confesso, as botas de couro, as bolsas de pelica macia (feita com o couro de neonatos), os cintos e os casacos de camurça. Pensava que esse era o destino desses animais desde o dia em que nasceram: virar bolsa e sapato e ter suas carnes devoradas nos churrascos. Até que um dia isso começou a me incomodar.

Desde criança tinha nojo da carne vermelha e nunca senti prazer em “saborear” um bife. Depois de muitos anos sofrendo com aquele “mal necessário”, como todo mundo me dizia, decidi que havia alternativas para cortar de vez o consumo daquilo que tanto me incomodava. Hoje, já há alguns anos, não como mais carne, mas ainda não consegui autonomia nem $$$ suficientes para cortar de vez a carne de frango nem todos os animais que vêm do mar. É caro (ainda!) encontrar alternativas saudáveis e qualquer pessoa que leve a sério a dieta vegetariana sabe que é preciso se cuidar para não ficar no mínimo anêmico. Além disso, alguém já parou para ler o rótulo de um hambúrguer de soja? É tanto aromatizante, corante, espessante, conservante, que aquilo não pode fazer bem à ninguém. Enquanto isso, vamos nos conformando com toneladas de tofu e carne de soja bem temperadinha.

Mas o que isso tem a ver com estilo e moda? Tudo. Se moda é atitude (li isso numa contracapa de revista na propaganda de um relógio esta semana), então combina com querer preservar a vida e toda essa onda ecológica que as pessoas parecem esquecer quando olham um casaco de pele. Não subiria numa passarela gritando com um cartaz mas entendo e até apóio alguém que tenha a coragem (e o desespero) de fazer isso. Mas se as focas merecem nossa consideração, até quando o assassinato poderá ser considerado necessário para o “embelezamento” da raça humana?

Encontrei umas sapatilhas de tecido e borracha da Arezzo (no meio de infinitas opções em couro) que são lindas e fiquei um pouco aliviada. Tenho em meu guarda-roupa e na minha sapateira heranças do tempo em que eu não pensava nisso e comprava porque achava bonito. Tenho certeza que se tomar consciência é um primeiro passo, deixar de comprar é pelo menos um segundo.

Dá pra se vestir bem sem matar ninguém.

Sapatilha de Cetim

 

 
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