
No misterio do sem-fim equilibra-se um planeta.
E no planeta um jardim e no jardim um canteiro
no canteiro uma violeta
e sobre ela o dia inteiro
entre o planeta e o sem-fim
a asa de uma borboleta.
Cecília Meireles

No misterio do sem-fim equilibra-se um planeta.
E no planeta um jardim e no jardim um canteiro
no canteiro uma violeta
e sobre ela o dia inteiro
entre o planeta e o sem-fim
a asa de uma borboleta.
Cecília Meireles

Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?
Guimarães Rosa, escritor brasileiro
PS. Estou devendo o crédito da foto!
Tá, colocaram no calendário que hoje é dia mundial do meio ambiente. A gente vê listas de muitas coisas em todos os lugares, listas de coisas que poderíamos fazer todos os dias, como economizar água, plantar uma árvore, reciclar o lixo.
Acho digno que haja uma data para nos lembrar, mas acho péssimo que muita gente precise dela. Acho ótimo que haja um dia de mobilização, de conscientização, mas acho horrível que o esquecimento aconteça.
Lembrar do planeta é lembrarmos de nós mesmos. Você algum dia já esqueceu de viver, de respirar, de comer? Às vezes, durante nosso dia a dia atarefado, a gente esquece de se cuidar, come bobagem, não toma água. Mas a gente se recrimina, se lembra que tem que se cuidar direito, não é? Com o planeta deveria ser assim: descuidar pode até ser uma bobeada, uma vacilada, mas não a regra.
Dia Mundial do Meio Ambiente = Dia Mundial da Humanidade, das Plantas, dos Animais e do Planeta. Dia da gente se lembrar de cuidar da nossa casa. Sugestão: plante uma árvore!

Linda e inspiradora crônica de Walcyr Carrasco, que saiu na Veja São Paulo de 22 de março de 2009.
BICO TORTO
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Ao me mudar para Higienópolis, escolhi um novo endereço para cortar o cabelo. Um amigo me indicou o Mário, que trabalha em um shopping. Animado, o rapaz gosta de conversar o tempo todo. Entre uma tesourada e outra, me falou de sua paixão por pássaros.
— São pinturas vivas!
No início, não me interessei muito pelo assunto. Meu pai criava canários. Passei minha infância ajudando a distribuir alpiste e água pelas gaiolas. Embora o canto e o colorido dos canários fossem incríveis, eu me rebelava contra a obrigação.
— Hum, hum — fiz, educadamente, quando o cabeleireiro entrou no tema.
Animado, o rapaz contou:
— Criei uma arara vermelha no apartamento!
Assustei-me.
— Não é pássaro protegido pelo Ibama?
— Era nascida em cativeiro.
Explicou que a criação de animais em cativeiro ajuda a salvá-los da extinção.
— A arara se comportava como um bichinho de estimação!
Segundo o rapaz, ela pousava em seu braço, comia em sua mão. Reconhecia sua aproximação de longe. Tanta fidelidade provocou uma crise no prédio. Se o dono chegava de noite, a ave soltava gritos de alerta que acordavam a vizinhança. Quem já ouviu sabe bem como é. Houve uma revolta no condomínio. Mário e a mulher cobriram a gaiola, para ver se a arara dormia. Inútil. Mal ele se aproximava da porta, movida pelo sexto sentido comum aos animais, a ave gritava. Fosse de dia ou de noite. Pior, de madrugada. A arara tornou-se um constrangimento.
— Não é para ser criada em apartamento! — rugiu o síndico.
Na época, Mário montava uma pequena escola de primeiro grau em sociedade. Resolveu construir um viveiro de pássaros para os alunos. Só a barulhenta seria pouco. Saiu em busca de outras aves. Descobriu uma loja especializada em espécimes raros criados em cativeiro. O dono prontificou-se a arrumar tipos capazes de viver em harmonia. E propôs, como presente:
— Você não quer ficar com esta ararinha que nasceu com um problema?
O filhote tinha o bico torto, tanto que era incapaz de se alimentar. Só podia ser nutrido através de uma seringa. O oferecimento soou como uma coincidência:
— A proposta da minha escola é justamente a integração da criança deficiente. Tem tudo a ver! — agradeceu Mário.
Levou o filhote para seu apartamento. Passou um bom tempo alimentando-o com papinhas e, como sobremesa, grãos. Aos poucos diminuiu o pastoso e aumentou os sólidos. A ararinha aprendeu a se alimentar sozinha, apesar do bico torto. Só então a levou para o viveiro.
A quem diz que o pássaro estaria muito melhor solto na natureza, o rapaz responde com um argumento:
— Não a arara de bico torto. Quando algum filhote nasce com problema, os pais o atiram do ninho.
Os alunos elegeram a arara como mascote. Ficam felizes ao vê-la no viveiro, convivendo com os outros pássaros, soltando gritos de alerta, comendo com a cabeça curva. Adaptou-se tão bem que… surpresa! Acasalou-se com um macho da espécie e já teve filhotinhos. Enquanto eles piam no ninho, ela os alimenta delicadamente com o bico torto, que se tornou tão útil quanto qualquer outro.
Em uma cidade grande, violenta e cheia de problemas como São Paulo, há o risco de se ficar com o coração torto. E só olhar para o lado ruim de tudo. Sempre me surpreendo. Basta estar de ouvidos abertos para, seja em um corte de cabelo, seja no balcão da padaria, descobrir uma história emocionante. Como a da arara de bico torto que hoje encanta as crianças de uma escolinha da Zona Sul.
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e-mail: walcyr@abril.com.br
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